segunda-feira, 7 de novembro de 2011

4.2 - Os animais no Céu

OS ANIMAIS NO CÉU
– Ah, mas a história ainda não terminou. Falta dizer algo importante sobre os animais do presépio.
– Então continue, vó Zuza, pois quero saber tudo.
Nesse momento, porém, a minha mãe passou por ali dizendo:
– Valdo, pegue as suas coisas, que já está na hora de irmos embora. Precisamos também passar pela casa da sua avó Aline.
– Mas, mãe, a vó Zuza ainda não terminou a história dos animais do presépio!
A vó Zuza interveio:
– Miro, é melhor você fazer o que a sua mãe lhe diz. Já estamos há mais de uma hora conversando, e você precisa também ver a sua outra avó neste dia de Natal. Não há problema, no ano que vem eu termino a história.
– Não sei se agüento a curiosidade até lá!
– Então faça o seguinte: pegue a Bíblia e leia o livro do Apocalipse, pois tudo o que eu ia lhe contar está lá.
 – Está bem. Mas se eu não entender bem alguma coisa, a senhora explica-me depois.
Naquela mesma noite, cheguei em casa e fui ler o livro do Apocalipse. Para dizer a verdade, não entendi muita coisa, mas fiquei tão impressionado com tudo o que li que acabei tendo um sonho incrível naquela noite. Nesse sonho, fui ainda mais longe que a vó Zuza: fui ao céu!
Quem me recebeu lá foi um anjo que se apresentou assim:
– Muito prazer. O meu nome é Fanuel.
Eu, surpreso, respondi:
– Eu me chamo Miro e já conheço você de longa data.
– Não acredito!
– O seu nome não significa “Aquele que vê a Deus face a face”?
– Como sabe? De onde me conhece?
– Uma pessoa querida contou-me muitas coisas sobre você!
– E como se chama essa pessoa?
Fiquei sem jeito de dizer que se chamava Zuza e disse o seu verdadeiro nome:
– Maria de Jesus.
O anjo ficou tão contente ao ouvir isso que deu uma pirueta no ar! A sua reação pareceu-me desproporcionada, mas logo me dei conta de que ele tinha confundido Maria de Jesus, a Zuza, com a própria Virgem Maria! Mas fiquei sem jeito de esclarecer a confusão e deixei passar. Não sei se foi por causa dessa confusão, mas o fato é que Fanuel me tratou especialmente bem. Foi-me guiando e explicando tudo no céu.
Aproveitei a sua boa vontade para perguntar-lhe algo que me intrigava:
– Fanuel, eu li o Apocalipse, e ali se diz que no céu há animais; aqui, porém, não vejo nenhum: só anjos e pessoas humanas. Onde estão os animais?
O anjo respondeu-me:
– Pelo que sei, pelo menos até o fim dos tempos, quando houver um novo céu e uma nova terra, propriamente não haverá animais no céu. Mas as suas figuras já estão presentes aqui.
– Como assim? Não estou entendendo!
– Repare bem. Se você fixar o olhar em algum dos santos, verá a figura do animal com que esse santo mais se identificou. Experimente, por exemplo, com São João Evangelista, que está logo ali à sua frente.
Depois de olhar para São João por alguns momentos, de fato passei a ver uma grande águia, forte e belíssima. Fanuel explicou-me:




– A águia é figura dos místicos, que voaram alto na contemplação de Deus quando ainda estavam na terra.
– Que outros santos são águias?
– Só citarei alguns: Agostinho, Bento, João da Cruz... E agora olhe para Lucas. Que animal você vê?
– Vejo um touro fortíssimo. Fanuel, nem precisa explicar-me essa figura, pois eu já conheço bem o que ela representa. Mas posso ver o próprio Jesus Cristo?
– Claro que sim. Todos os que estão no céu têm esse direito, mesmo que estejam apenas em sonhos.
Olhei fixamente para Jesus, e vi um lindo cordeiro, todo branco, sem mancha alguma. Percebi que do seu corpo irradiava a luz que iluminava a todos os anjos e santos no céu, e que a luz dos santos não passava de um reflexo da sua luz, assim como a luz da lua é um reflexo da luz do sol. Disse a Fanuel:
– Eu já sabia que Jesus só podia ser o Cordeiro!
– E você não quer olhar para Maria, Miro?
– Claro, Fanuel!
Olhei para Maria, que estava do lado direito de Jesus, e Ela tornou-se aos meus olhos uma linda ovelhinha, muito parecida com o Cordeiro, toda branca também. De todas as ovelhas e carneiros do céu, só Jesus e Maria eram assim: sem nenhuma mancha no corpo. Mas, intrigado, perguntei a Fanuel:
– Que Nossa Senhora é mansa e doce, isso eu já sabia. Mas pensava que ovelhas fossem principalmente as pessoas que morreram mártires.
– Você tem razão. Só que Maria, por ter acompanhado Jesus na sua paixão, sofreu tanto que bem se pode dizer que foi mártir, embora não tenha morrido.
Olhei para o outro lado de Jesus e vi São José, que me apareceu como um burrinho encantador. Que brilho se refletia em todo o seu corpo!
De repente, vi um espetáculo maravilhoso: uma revoada de centenas de pombas.




– E essas pombas, Fanuel, quem são?
– São as pessoas que se destacaram por conservarem a alma pura e inocente, sobretudo por viverem a castidade. São principalmente as pessoas virgens.
– Xi, acho que a minha avó Zuza escolheu o animal errado para si! Afinal, teve treze filhos!
– Não, Miro: com esse número de filhos, a sua avó certamente será também uma pombinha no céu. Entre as pombas, há muitas pessoas casadas que se destacaram pela castidade no casamento e pela generosidade com relação aos filhos.
Voltei-me para o lado e vi um santo que não conhecia. Olhando fixamente para ele, vi um burrinho com uma imensa estrela na testa, semelhante a tantos outros burrinhos do céu, mas que tinha algo de diferente. Todo o seu corpo estava repleto de incontáveis estrelas de diverso tamanho e intensidade.
Perguntei “baixinho” a Fanuel:
– E quem é esse santo?
– Por que você não lhe pergunta pessoalmente?
– Bom dia, sou Valdomiro, mas pode chamar-me de Valdo ou Miro. E o senhor, como se chama?
– Todos no céu me conhecem como burrico sarnento!
Fanuel, que não gostou daquela apresentação, interveio. E disse ao santo:
– Josemaria, quantas vezes terei de dizer que as manchas que você traz na pele não são sarna, mas as estrelas das vocações das suas filhas e dos seus filhos, gente humilde que, no meio do seu trabalho diário, nunca tinha pensado que Deus quisesse servir-se deles e delas para nascer no coração do mundo. Como eles são fruto da sua oração e mortificação, Deus quis imprimir essas estrelas na sua pele, como uma condecoração!




Fiquei muito impressionado, e desejei um dia ter o meu corpo coberto de estrelas como o dele.
Nesse momento, acordei do sonho, desejando encontrar-me logo com a vó Zuza para ver se o final da história dos animais no presépio era mesmo aquele. Mas a vida, infelizmente, levou-me para longe da minha avó Zuza, e nunca mais pude passar um Natal com ela.

Se hoje você lê o “causo” dos animais do presépio, saiba que o narro por dois motivos. Primeiro, porque a vó Zuza voou para o céu este ano, e eu me sinto na obrigação de transmitir a herança que ela me deixou ao resto da família, que está espalhada por esse mundo de Deus. E principalmente porque, no dia da sua morte, para minha surpresa, pousou na janela do meu quarto um pombo-correio que trazia na pata uma mensagem! Desenrolei o papelzinho e li: “Se você quer vir para o céu, saiba que ainda faltam canarinhos-da-terra por aqui. Os canários-da-terra são as pessoas que vão pelo mundo cantando as maravilhas do presépio de Deus”.




Quando olhei de novo para o pombo-correio, ele já tinha voado para o céu.
A você, que acaba de desvendar com a vó Zuza muitos dos segredos do presépio, faço um convite: não tenha receio de ser um burrinho, uma vaquinha ou uma ovelha no presépio, pois assim poderá sê-lo no céu. Caso não se anime a ser nenhum dos animais anteriores, pelo menos cante comigo na terra as maravilhas do presépio de Deus, já que ainda faltam muitos canários-da-terra no céu!