quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1.6 - O burro Luzeiro a caminho de Belém

Então o anjo Fanuel soltou a corda que prendia o burro e foi ao seu lado, indicando-lhe o caminho até a casa de Maria.
Tudo ia muito bem, até que, na metade do caminho, passaram por um lugar belíssimo, como jamais o burro havia visto: era um jardim gramado, com muitas flores, borboletas de todas as cores, muitas árvores que davam excelente sombra, um riacho com uma cachoeira cujo som era muito repousante. O burro pensou: “É aqui mesmo que eu fico!” 
O anjo assustou-se ao ver que o burrinho empacava e não queria dar mais nenhum passo. Mas logo percebeu que aquele lugar não era real, pois tinha passado muitas vezes por ali e não havia nada daquilo antes. Pensou: “Ou se trata de uma miragem, ou é obra do coisa-ruim, que já quer meter o rabo para que o burrinho não chegue ao fim do seu caminho”.
O anjo pôs-se ao lado do burrinho e disse-lhe ao ouvido:
– Não se esqueça de que Deus precisa de você e está à sua espera.



O burro, que é esperto e sabe que a felicidade não está em curtir a vida (embora de vez em quando o esqueça), mas em fazer o bem e em servir os outros e principalmente a Deus, imediatamente caiu em si e voltou a andar leve e faceiro.
Continuando pelo caminho, tiveram que passar pelo meio de uma mata em que o coisa-ruim tinha preparado outra cilada: um lobo, escondido no meio da mata, esperava o burro para pular sobre o seu lombo e liquidá-lo.
Na hora em que o lobo ia saltar, porém, Fanuel intuiu o perigo e gritou ao burro:
– Cuidado, à sua esquerda!
O burro voltou rapidamente os quartos traseiros para a esquerda e deu um coice como jamais havia dado. Pegou em cheio o lobo, que foi parar a vários metros de distância, totalmente desacordado.
– Miro, foi por muito pouco que o burro não se deu mal. A sorte dele foi que Fanuel tinha intuição angélica e teve tempo de avisá-lo. É preciso tomar cuidado nesta vida, pois quando menos se espera o coisa-ruim pode estar à espreita. Como diz o ditado, com a tentação não se brinca. Às vezes, pode vir de forma violenta, mas outras vezes vem sorrateiramente como uma miragem.
Logo chegaram à casa de Maria. Fanuel amarrou o burro na porta, e por indicação dele o jumento soltou um forte zurro.
Ao ouvir o zurro, Maria entendeu imediatamente que Deus tinha escutado a sua oração e correu a abrir a porta. Deu de cara com o burro e ficou tão radiante de alegria que lhe deu um beijo bem no meio da testa. O anjo Fanuel, que observava escondido a cena, reparou que na testa do burro apareceu uma estrela muito brilhante, exatamente no lugar onde Maria o tinha beijado. E avisou disso o burro, que ficou muitíssimo orgulhoso da sua condecoração e pensou de si para si: “Não foi nada esse susto que passei no caminho, comparado ao prêmio que agora estou recebendo. Espero que sempre me venham pelas mãos de Maria umas carícias destas...”
No dia seguinte logo cedo, Maria preparou a bagagem e partiu em direção às montanhas montada no burrinho. Ficou três meses em casa de Isabel, que era idosa, estava grávida e precisava de ajuda. Quando voltou da visita, Nossa Senhora levou o burrinho de presente a José, como seu dote de casamento. José encantou-se com o burrinho desde o primeiro momento em que o viu e deu-lhe o nome de Luzeiro, devido à estrela brilhante que trazia na testa.
A partir de então, Luzeiro passou ser o animal de transporte e de carga da Sagrada Família, viajando com eles para tudo quanto é lado. Sempre que os caminhos se tornavam escuros, a estrela da sua testa brilhava, permitindo que todos vissem a estrada e não se extraviassem.
Quando se convocou o recenseamento, José, Maria e o Luzeiro partiram para Belém. José ia ao lado do Luzeiro, que transportava Maria com o Menino Jesus no seu seio. Partiram para Belém pensando que poderiam voltar rapidamente para que Jesus nascesse em Nazaré. Tinham-se esquecido da profecia que dizia que o Messias nasceria em Belém e não imaginavam que a burocracia e o afluxo de pessoas fossem tão grandes por lá.
José começou a bater nas portas das casas da aldeia pedindo abrigo. Mas todos diziam, talvez pela gravidez avançada de Maria, que não havia lugar para eles nas suas casas.
Luzeiro foi perdendo a paciência e não agüentou ficar calado; depois da quarta tentativa frustrada, disse a José e Maria:
– Se quiserem, posso dar um coice e derrubar as portas das casas, para que eles aprendam a não fechar as portas a Deus.
Maria, depois de se recuperar do susto de ver um burro falar, disse ao Luzeiro, acariciando-o:
– Você não fará nada disso, pois eles não sabem que estão fechando a porta a Deus. Vamos perdoar-lhes. Deus proverá um bom lugar para nos abrigarmos.
Passaram por uma pousada que estava repleta de pessoas, mas José não quis ficar ali porque faltava um mínimo de privacidade. Por fim, bateram à porta de uma casa mais simples do que as anteriores. Os donos abriram-lhes e disseram:
– Infelizmente, esta casa é pequena demais e não há espaço para vocês. Mas, se quiserem, podem ficar em uma gruta aqui perto, que usamos para abrigar os animais em dias de muita chuva. E para lá se foram.