quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1.3 - A figura do burro do presépio

– Francamente, não entendi! É claro que o burro é figura do presépio, mas que seja figura de gente, isso não dá para entender!
– Pois aí está um dos segredos do presépio. Meu bem, você perguntou-me por que as figuras do burro, do boi e das ovelhas estavam mais perto da Sagrada Família do que as dos homens. Entre outros motivos, porque representam pessoas, mas não quaisquer pessoas, e sim as que têm as qualidades que vemos retratadas nos animais do presépio. Você nunca leu nos salmos que “Deus salvará os homens e os burros”? Isso significa que irão para o céu as pessoas que se tiverem identificado com o burro.



– Vó Zuza, quais são então as qualidades do burro que essas pessoas viveram?
– Miro, isso não se pergunta! Isso se deduz da própria história da criação desse animal!
Os burros representam todas aquelas pessoas que têm uma profunda sabedoria de vida. Elas sabem e experimentam que só encontramos a alegria e a felicidade quando vivemos para servir as pessoas que Deus colocou ao nosso lado. São figuras das pessoas de alma mais delicada e fina, que consideram um privilégio poderem servir a Deus e aos outros.
São burrinhos de Deus tantos pais e mães que vivem em função dos filhos, procurando dar-lhes toda a atenção, garantindo o seu sustento e cuidando de cada um deles. O burrinho do presépio também representa os filhos que não contabilizam os serviços que prestam em casa, e não se queixam das pequenas tarefas que lhes são confiadas, transformando-as em manifestação de amor e agradecimento aos seus pais.
São burrinhos de Deus, que estão muito perto do Menino Jesus, as pessoas que sempre se adiantam a realizar pequenos serviços caseiros: trocar uma lâmpada que se queimou, abrir a porta quando ouvem a campainha da casa soar, limpar as manchas de café ou refrigerante que alguém derramou, regar uma planta que está secando... E de preferência tudo isso ocultamente, sem chamar a atenção para si mesmas.
– Isso não é nenhuma indireta para mim, né?
– É claro que não! Você sabe que sempre fui muito franca e direta.
Mas continuemos: a imagem do burrinho do presépio também simboliza os verdadeiros amigos que sabem valorizar os outros, preparando alguma lembrança personalizada para o dia do seu aniversário, que se lembram de separar um artigo em uma revista ou jornal que interessa a um colega, que se colocam à disposição para acompanhar um amigo em um plano que deseja fazer...
– Como o mundo seria melhor se houvesse mais burrinhos de Deus espalhados por aí!
– Sem dúvida! Mas comecemos a melhorar o mundo sendo nós mesmos burrinhos de Deus.
– E a parte da história que fala do burrinho de nora? A senhora ainda não comentou nada sobre ela!
– Vejo que você está atento à história da criação dos animais! Que bom! Mas é claro que eu não ia deixar escapar o burrico de nora nem o burrinho de carga.
– Já estava esquecendo que Deus criou o burro como animal de carga!

– Miro, o burro de carga é figura de todas as pessoas que não tiram o ombro, que não fogem da carga que Deus lhes confia. Para essas pessoas, não importa a qualidade que os outros atribuem à carga que levam, pois sabem que o que importa na vida é levar a carga que Deus colocou nos seus ombros, seja qual for. Para Deus, o valor da carga não depende tanto do preço que os homens pagam por ela, mas do amor com que o burrinho a carrega.
Já o burrinho de nora é figura de todas as pessoas que realizam um trabalho repetitivo, que poderia até tornar-se monótono por ser sempre o mesmo. Mas não é assim, pois essas pessoas sabem renovar o seu amor a cada dia. Quando o amor é renovado, já não há rotina nem falta de motivação, e evita-se o cansaço espiritual, embora possa existir o cansaço físico. Os trabalhos repetitivos tornam-se então pequenos rituais de amor em que se procura fazer tudo cada vez com mais carinho e perfeição. E onde haveria terra árida se não houvesse o burrinho de nora, há agora um lugar agradável, de repouso e descanso, um remanso de felicidade.
– Vó Zuza, agora entendo por que a senhora quis colocar a figura do burro tão perto da Sagrada Família. Eu faria o mesmo se soubesse de tudo isso.