quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1.2 - A criação do burro

A CRIAÇÃO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
No sexto dia da Criação, Deus criou os animais terrestres.
Nos dias anteriores, já tinha criado os céus com os seus astros: o sol, a terra e a lua, e com eles o dia e a noite; tinha criado também a terra firme e o mar. Já havia enchido a terra de belas plantas, árvores de frutos saborosos e flores exuberantes; e os rios e o mar de peixes de todas as cores e tamanhos, e de todo o tipo de plantas e animais marinhos.
Na manhã do sexto dia, Deus disse: “Voem as aves sobre a terra, nos céus. E a terra se encha de seres vivos: animais domésticos, répteis e animais selvagens”. E assim foi criada a maioria dos animais.
Mas Deus pensou: “Ainda faltam os principais animais, aqueles que terão uma missão especial a desempenhar no meu presépio. Faltam ainda o burro, a vaca, o cordeiro e o homem”.
A criação do burro
E pegando um pouco de lama de cor marrom escura, Deus modelou o burro, que manteve na pele a cor da lama da qual fora moldado.

E Deus deixou o burro escorrendo. Quando já tinha escorrido boa parte da água, a lama ganhou consistência e o burro passou a ser um ser vivente.
E Deus disse-lhe:
– Tu, burro, serás um ser que não se pertence, que não trabalha em benefício próprio, mas em benefício dos outros e, principalmente, a meu serviço. A tua alegria e felicidade estarão em servir.
Serás um animal de carga: levarás no teu lombo desde as cargas mais simples, como os feixes de lenha, sacos de cereais e grãos, até valiosos carregamentos de pedras preciosas. Mas não farás caso da qualidade da carga: porás o mesmo empenho e diligência em levar com cuidado qualquer peso que venham a colocar sobre o lombo. Por isso, serás o gozo e o descanso do teu amo.
Terás orelhas grandes para ouvir bem a voz do teu amo, que te guiará em cada passo do teu caminho.
Em muitos lugares de seca ou de poucos rios, serás atrelado a uma nora, e com a força do teu trabalho, dando voltas à nora e fazendo-a girar, bombearás a água do poço para os pomares, para as hortas, para os jardins e para os reservatórios de água. Pelo teu trabalho, haverá folhagens verdejantes nos bosques, verduras nas hortas, flores das mais variadas cores nos jardins, frutas doces e saborosas nos ramos das árvores e água limpa e cristalina para matar a sede dos outros animais.
Não te esqueças disto, pois quando estiveres girando a nora não verás os frutos do teu trabalho. Trabalharás todos os dias da tua vida com a mesma pressão dos arreios, percorrerás o mesmo trajeto circular, dia após dia, semana após semana, ano após ano. Mas nunca deixes de ouvir a canção da água, que rega as plantas e sacia a sede dos animais.
– Vó Zuza, posso interromper?
– Claro.
– Sabe que eu nunca vi uma nora? É claro que deu para entender que é uma espécie de bomba que é movida pela força do burro, assim como alguns moinhos são movidos pela força da água. Mas de onde a senhora “tirou” essa nora?
– Miro, não fui eu que “tirei” a nora de lugar algum. Deus é que falou dela ao burro que acabava de criar. Para dizer a verdade, eu também nunca vi nenhuma. Minha avó, que veio de Portugal, era quem me contava histórias do burro de nora. Mas não sei se ela viu uma nora ou não, ou se alguém lhe falou dela. Isso eu nunca lhe perguntei. De qualquer forma, Deus, ao criar o burro, não pensou apenas nos burros da nossa terra, que não impulsionam nora alguma, mas nos burros de todo o mundo.

– Desculpe-me tê-la interrompido.
Deus continuou a dizer ao burro:
– Não ficarás sem prêmio. Se algum dia, ao voltares ao estábulo para receber a tua ração pelo teu trabalho, e o teu dono, por ingratidão, se esquecer de ti, tem a certeza de que eu nunca me esquecerei. Enviarei ao teu estábulo um dos meus anjos com as mãos cheias de torrões de açúcar para retribuir tudo o que fizeste por mim.
O burro nem tinha começado a mexer-se e já se sentia muito bem pago! Mas Deus continuou a falar-lhe:
– Devo ainda profetizar que servirás de montaria às pessoas mais importantes do mundo. E o mais essencial de tudo, o que dará sentido pleno à tua vida: um dia, um dos teus descendentes estará dentro do presépio de Belém.
– Vó Zuza, mas será que Deus falou com o burro como se ele fosse um ser inteligente, que pudesse entender?
– Não se fazem mais netos como antigamente! Miro, é claro que, se Deus falou com o burro, é porque lhe deu a capacidade de entender; senão, não falaria!
– Esse burro parece mais gente que muita gente, pois ouve e entende a Deus.
– Isso é verdade. Mas, meu neto, deixe-me explicar bem as coisas para que você não as confunda. Burro é burro, gente é gente, mas Deus quis que o burro fosse figura de gente.