quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1.1 - As estórias da Vó Zuza

O CONTO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
Meu nome é Valdomiro. Na minha terra, é muito comum que os nomes sejam iguais aos dos pais ou dos avós, ou ainda que sejam uma combinação de partes dos nomes de parentes próximos. No meu caso, é a união da parte final do nome do meu avô materno, Os-valdo, com a do meu avô paterno, Arge-miro. Mas ninguém me chama pelo nome; na família materna, sou Valdo; na paterna, Miro. E com o passar do tempo já me acostumei a ser chamado das duas formas.
Hoje, vieram-me umas boas recordações dos quinze Natais que passei em Pouso Alto. Cada Natal era aguardado com ansiedade. Era a época para rever os meus mais de cinqüenta primos que vinham de todas as partes do Brasil para festejar o aniversário da nossa avó: a vó Zuza.
Não se pense que a nossa avó se chamava Zuza. Seu nome era muito bonito: por ter nascido no dia de Natal, os meus bisavós deram-lhe o nome de Maria de Jesus. Mas, com o passar do tempo, o seu nome foi-se transformando: Maria de Jesus passou a ser apenas “de Jesus”, Jesusinha, Zuzinha,... até se tornar simplesmente Zuza.
A vó Zuza tinha muitas qualidades, entre as quais a paciência – muito necessária para educar os seus treze filhos – e a doçura de temperamento e de cozinha. Explico-me: fazia uns doces de abóbora com coco como nunca comi outros iguais; os seus bolos de laranja e a goiabada caseira também eram imbatíveis; os biscoitos de nata eram "do outro mundo"... Mas a qualidade que mais me impressionava era a de ser uma excelente contadora de “causos”, como se diz em Minas, talvez a melhor entre todas as contadoras da cidade de Pouso Alto.



Dos Natais que passei com a vó Zuza, houve um mais significativo, pois ela contou-me a mais bela história que escutei na vida: a dos animais do presépio, desvendando-me alguns dos seus principais segredos.
Ela tinha montado o presépio na sua ampla sala de estar. Compunha-se de treze figuras humanas, além das da Sagrada Família, que fora comprando aos poucos: a cada filho que nascia, vó Zuza adquiria uma imagem representando o mais novo membro da família. Quando lhe perguntávamos onde é que estavam ela e o avô, apontava, sem dizer nenhuma palavra, mas com uma cara de “levada”, para um casal de pombinhos que tinha colocado na janela da casinha do presépio. Nós apenas ríamos.
Também havia ali as tradicionais figuras de animais: um burro, uma vaquinha leiteira e algumas ovelhinhas.
Na ocasião a que me refiro, eu tinha uns quinze anos; estava observando o presépio quando, sem que eu o percebesse, a vó Zuza se aproximou de mansinho e me perguntou:
– Miro, o que você está pensando?
– Vó Zuza, estava pensando por que a senhora colocou um burro, uma vaca e algumas ovelhinhas dentro da casinha do presépio, tão perto de Jesus, Maria e José. Esses animais até estão mais perto do Menino Jesus do que os homens!
Ela começou a dizer, da maneira como sempre principiava os seus “causos”:
– Essa é uma longa história, mas, se tiver tempo, posso contá-la a você...
Sempre tínhamos tempo para ouvir as suas incríveis histórias. Mas, para ouvi-las, tínhamos que “entrar no jogo”: agir como se acreditássemos em tudo o que contava e aceitar ser tratados algumas vezes como crianças, já que, para a vó Zuza, com os seus setenta anos, não passávamos mesmo disso. Se começássemos a duvidar do que dizia, a história não chegava ao fim: a vó Zuza interrompia-a com alguma desculpa amável. Eu, em plena adolescência, tinha que me esforçar muito para não ser “do contra” e aceitar ser tratado como criança. Mas valia a pena o esforço, pois gostava muito das suas histórias. Por sua vez, a vó Zuza gostava da nossa participação, de que fizéssemos perguntas inteligentes e que exigissem dela respostas rápidas e criativas.
– Tudo começou com a criação do mundo, disse ela, já iniciando a sério o “causo”.
Nesse momento, pensei: “Xiii... Desta vez a história vai longe!...”