domingo, 13 de novembro de 2011

Como ler o blog com o conto dos animais do presépio

Este blog contém o conto de natal intitulado “Os animais do presépio”.
O tema central do conto é: "as figuras dos animais do presépio". 
Este conto traz as estórias da "Vó Zuza" narradas ao seu neto Valdomiro. A avó responde à pergunta do neto: "Porque a senhora colocou as figuras dos animais tão perto da Sagrada Família no presépio?".
Este conto pode ser lido por capítulos, indicados pelos “Capítulos do conto Os Animais do Presépio”, ao lado esquerdo:


Ou por páginas, publicadas no mês de novembro:

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Dedicatória

a todos filhos e netos da "Vó Zuza" 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1.1 - As estórias da Vó Zuza

O CONTO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
Meu nome é Valdomiro. Na minha terra, é muito comum que os nomes sejam iguais aos dos pais ou dos avós, ou ainda que sejam uma combinação de partes dos nomes de parentes próximos. No meu caso, é a união da parte final do nome do meu avô materno, Os-valdo, com a do meu avô paterno, Arge-miro. Mas ninguém me chama pelo nome; na família materna, sou Valdo; na paterna, Miro. E com o passar do tempo já me acostumei a ser chamado das duas formas.
Hoje, vieram-me umas boas recordações dos quinze Natais que passei em Pouso Alto. Cada Natal era aguardado com ansiedade. Era a época para rever os meus mais de cinqüenta primos que vinham de todas as partes do Brasil para festejar o aniversário da nossa avó: a vó Zuza.
Não se pense que a nossa avó se chamava Zuza. Seu nome era muito bonito: por ter nascido no dia de Natal, os meus bisavós deram-lhe o nome de Maria de Jesus. Mas, com o passar do tempo, o seu nome foi-se transformando: Maria de Jesus passou a ser apenas “de Jesus”, Jesusinha, Zuzinha,... até se tornar simplesmente Zuza.
A vó Zuza tinha muitas qualidades, entre as quais a paciência – muito necessária para educar os seus treze filhos – e a doçura de temperamento e de cozinha. Explico-me: fazia uns doces de abóbora com coco como nunca comi outros iguais; os seus bolos de laranja e a goiabada caseira também eram imbatíveis; os biscoitos de nata eram "do outro mundo"... Mas a qualidade que mais me impressionava era a de ser uma excelente contadora de “causos”, como se diz em Minas, talvez a melhor entre todas as contadoras da cidade de Pouso Alto.



Dos Natais que passei com a vó Zuza, houve um mais significativo, pois ela contou-me a mais bela história que escutei na vida: a dos animais do presépio, desvendando-me alguns dos seus principais segredos.
Ela tinha montado o presépio na sua ampla sala de estar. Compunha-se de treze figuras humanas, além das da Sagrada Família, que fora comprando aos poucos: a cada filho que nascia, vó Zuza adquiria uma imagem representando o mais novo membro da família. Quando lhe perguntávamos onde é que estavam ela e o avô, apontava, sem dizer nenhuma palavra, mas com uma cara de “levada”, para um casal de pombinhos que tinha colocado na janela da casinha do presépio. Nós apenas ríamos.
Também havia ali as tradicionais figuras de animais: um burro, uma vaquinha leiteira e algumas ovelhinhas.
Na ocasião a que me refiro, eu tinha uns quinze anos; estava observando o presépio quando, sem que eu o percebesse, a vó Zuza se aproximou de mansinho e me perguntou:
– Miro, o que você está pensando?
– Vó Zuza, estava pensando por que a senhora colocou um burro, uma vaca e algumas ovelhinhas dentro da casinha do presépio, tão perto de Jesus, Maria e José. Esses animais até estão mais perto do Menino Jesus do que os homens!
Ela começou a dizer, da maneira como sempre principiava os seus “causos”:
– Essa é uma longa história, mas, se tiver tempo, posso contá-la a você...
Sempre tínhamos tempo para ouvir as suas incríveis histórias. Mas, para ouvi-las, tínhamos que “entrar no jogo”: agir como se acreditássemos em tudo o que contava e aceitar ser tratados algumas vezes como crianças, já que, para a vó Zuza, com os seus setenta anos, não passávamos mesmo disso. Se começássemos a duvidar do que dizia, a história não chegava ao fim: a vó Zuza interrompia-a com alguma desculpa amável. Eu, em plena adolescência, tinha que me esforçar muito para não ser “do contra” e aceitar ser tratado como criança. Mas valia a pena o esforço, pois gostava muito das suas histórias. Por sua vez, a vó Zuza gostava da nossa participação, de que fizéssemos perguntas inteligentes e que exigissem dela respostas rápidas e criativas.
– Tudo começou com a criação do mundo, disse ela, já iniciando a sério o “causo”.
Nesse momento, pensei: “Xiii... Desta vez a história vai longe!...”

1.2 - A criação do burro

A CRIAÇÃO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
No sexto dia da Criação, Deus criou os animais terrestres.
Nos dias anteriores, já tinha criado os céus com os seus astros: o sol, a terra e a lua, e com eles o dia e a noite; tinha criado também a terra firme e o mar. Já havia enchido a terra de belas plantas, árvores de frutos saborosos e flores exuberantes; e os rios e o mar de peixes de todas as cores e tamanhos, e de todo o tipo de plantas e animais marinhos.
Na manhã do sexto dia, Deus disse: “Voem as aves sobre a terra, nos céus. E a terra se encha de seres vivos: animais domésticos, répteis e animais selvagens”. E assim foi criada a maioria dos animais.
Mas Deus pensou: “Ainda faltam os principais animais, aqueles que terão uma missão especial a desempenhar no meu presépio. Faltam ainda o burro, a vaca, o cordeiro e o homem”.
A criação do burro
E pegando um pouco de lama de cor marrom escura, Deus modelou o burro, que manteve na pele a cor da lama da qual fora moldado.

E Deus deixou o burro escorrendo. Quando já tinha escorrido boa parte da água, a lama ganhou consistência e o burro passou a ser um ser vivente.
E Deus disse-lhe:
– Tu, burro, serás um ser que não se pertence, que não trabalha em benefício próprio, mas em benefício dos outros e, principalmente, a meu serviço. A tua alegria e felicidade estarão em servir.
Serás um animal de carga: levarás no teu lombo desde as cargas mais simples, como os feixes de lenha, sacos de cereais e grãos, até valiosos carregamentos de pedras preciosas. Mas não farás caso da qualidade da carga: porás o mesmo empenho e diligência em levar com cuidado qualquer peso que venham a colocar sobre o lombo. Por isso, serás o gozo e o descanso do teu amo.
Terás orelhas grandes para ouvir bem a voz do teu amo, que te guiará em cada passo do teu caminho.
Em muitos lugares de seca ou de poucos rios, serás atrelado a uma nora, e com a força do teu trabalho, dando voltas à nora e fazendo-a girar, bombearás a água do poço para os pomares, para as hortas, para os jardins e para os reservatórios de água. Pelo teu trabalho, haverá folhagens verdejantes nos bosques, verduras nas hortas, flores das mais variadas cores nos jardins, frutas doces e saborosas nos ramos das árvores e água limpa e cristalina para matar a sede dos outros animais.
Não te esqueças disto, pois quando estiveres girando a nora não verás os frutos do teu trabalho. Trabalharás todos os dias da tua vida com a mesma pressão dos arreios, percorrerás o mesmo trajeto circular, dia após dia, semana após semana, ano após ano. Mas nunca deixes de ouvir a canção da água, que rega as plantas e sacia a sede dos animais.
– Vó Zuza, posso interromper?
– Claro.
– Sabe que eu nunca vi uma nora? É claro que deu para entender que é uma espécie de bomba que é movida pela força do burro, assim como alguns moinhos são movidos pela força da água. Mas de onde a senhora “tirou” essa nora?
– Miro, não fui eu que “tirei” a nora de lugar algum. Deus é que falou dela ao burro que acabava de criar. Para dizer a verdade, eu também nunca vi nenhuma. Minha avó, que veio de Portugal, era quem me contava histórias do burro de nora. Mas não sei se ela viu uma nora ou não, ou se alguém lhe falou dela. Isso eu nunca lhe perguntei. De qualquer forma, Deus, ao criar o burro, não pensou apenas nos burros da nossa terra, que não impulsionam nora alguma, mas nos burros de todo o mundo.

– Desculpe-me tê-la interrompido.
Deus continuou a dizer ao burro:
– Não ficarás sem prêmio. Se algum dia, ao voltares ao estábulo para receber a tua ração pelo teu trabalho, e o teu dono, por ingratidão, se esquecer de ti, tem a certeza de que eu nunca me esquecerei. Enviarei ao teu estábulo um dos meus anjos com as mãos cheias de torrões de açúcar para retribuir tudo o que fizeste por mim.
O burro nem tinha começado a mexer-se e já se sentia muito bem pago! Mas Deus continuou a falar-lhe:
– Devo ainda profetizar que servirás de montaria às pessoas mais importantes do mundo. E o mais essencial de tudo, o que dará sentido pleno à tua vida: um dia, um dos teus descendentes estará dentro do presépio de Belém.
– Vó Zuza, mas será que Deus falou com o burro como se ele fosse um ser inteligente, que pudesse entender?
– Não se fazem mais netos como antigamente! Miro, é claro que, se Deus falou com o burro, é porque lhe deu a capacidade de entender; senão, não falaria!
– Esse burro parece mais gente que muita gente, pois ouve e entende a Deus.
– Isso é verdade. Mas, meu neto, deixe-me explicar bem as coisas para que você não as confunda. Burro é burro, gente é gente, mas Deus quis que o burro fosse figura de gente.

1.3 - A figura do burro do presépio

– Francamente, não entendi! É claro que o burro é figura do presépio, mas que seja figura de gente, isso não dá para entender!
– Pois aí está um dos segredos do presépio. Meu bem, você perguntou-me por que as figuras do burro, do boi e das ovelhas estavam mais perto da Sagrada Família do que as dos homens. Entre outros motivos, porque representam pessoas, mas não quaisquer pessoas, e sim as que têm as qualidades que vemos retratadas nos animais do presépio. Você nunca leu nos salmos que “Deus salvará os homens e os burros”? Isso significa que irão para o céu as pessoas que se tiverem identificado com o burro.



– Vó Zuza, quais são então as qualidades do burro que essas pessoas viveram?
– Miro, isso não se pergunta! Isso se deduz da própria história da criação desse animal!
Os burros representam todas aquelas pessoas que têm uma profunda sabedoria de vida. Elas sabem e experimentam que só encontramos a alegria e a felicidade quando vivemos para servir as pessoas que Deus colocou ao nosso lado. São figuras das pessoas de alma mais delicada e fina, que consideram um privilégio poderem servir a Deus e aos outros.
São burrinhos de Deus tantos pais e mães que vivem em função dos filhos, procurando dar-lhes toda a atenção, garantindo o seu sustento e cuidando de cada um deles. O burrinho do presépio também representa os filhos que não contabilizam os serviços que prestam em casa, e não se queixam das pequenas tarefas que lhes são confiadas, transformando-as em manifestação de amor e agradecimento aos seus pais.
São burrinhos de Deus, que estão muito perto do Menino Jesus, as pessoas que sempre se adiantam a realizar pequenos serviços caseiros: trocar uma lâmpada que se queimou, abrir a porta quando ouvem a campainha da casa soar, limpar as manchas de café ou refrigerante que alguém derramou, regar uma planta que está secando... E de preferência tudo isso ocultamente, sem chamar a atenção para si mesmas.
– Isso não é nenhuma indireta para mim, né?
– É claro que não! Você sabe que sempre fui muito franca e direta.
Mas continuemos: a imagem do burrinho do presépio também simboliza os verdadeiros amigos que sabem valorizar os outros, preparando alguma lembrança personalizada para o dia do seu aniversário, que se lembram de separar um artigo em uma revista ou jornal que interessa a um colega, que se colocam à disposição para acompanhar um amigo em um plano que deseja fazer...
– Como o mundo seria melhor se houvesse mais burrinhos de Deus espalhados por aí!
– Sem dúvida! Mas comecemos a melhorar o mundo sendo nós mesmos burrinhos de Deus.
– E a parte da história que fala do burrinho de nora? A senhora ainda não comentou nada sobre ela!
– Vejo que você está atento à história da criação dos animais! Que bom! Mas é claro que eu não ia deixar escapar o burrico de nora nem o burrinho de carga.
– Já estava esquecendo que Deus criou o burro como animal de carga!

– Miro, o burro de carga é figura de todas as pessoas que não tiram o ombro, que não fogem da carga que Deus lhes confia. Para essas pessoas, não importa a qualidade que os outros atribuem à carga que levam, pois sabem que o que importa na vida é levar a carga que Deus colocou nos seus ombros, seja qual for. Para Deus, o valor da carga não depende tanto do preço que os homens pagam por ela, mas do amor com que o burrinho a carrega.
Já o burrinho de nora é figura de todas as pessoas que realizam um trabalho repetitivo, que poderia até tornar-se monótono por ser sempre o mesmo. Mas não é assim, pois essas pessoas sabem renovar o seu amor a cada dia. Quando o amor é renovado, já não há rotina nem falta de motivação, e evita-se o cansaço espiritual, embora possa existir o cansaço físico. Os trabalhos repetitivos tornam-se então pequenos rituais de amor em que se procura fazer tudo cada vez com mais carinho e perfeição. E onde haveria terra árida se não houvesse o burrinho de nora, há agora um lugar agradável, de repouso e descanso, um remanso de felicidade.
– Vó Zuza, agora entendo por que a senhora quis colocar a figura do burro tão perto da Sagrada Família. Eu faria o mesmo se soubesse de tudo isso.

1.4 - A missão do anjo Fanuel

A CONVOCAÇÃO DOS ANIMAIS
– Vó Zuza, a senhora já explicou a historia da criação do burro, ... mas ainda não contou como se cumpriram as profecias de que algum dos seus descendentes estaria no presépio!
– Então, passemos à segunda parte da história: o cumprimento das profecias sobre o burrinho do presépio.
O Anjo Gabriel já tinha sido enviado a Maria, para anunciar que Ela seria a Mãe do Messias. E como Maria tinha respondido generosamente que sim, Deus já estava presente no seu seio. Talvez tenha sido o momento mais importante da história dos homens e de toda a criação! Embora no momento em que isso aconteceu, ninguém o tenha percebido, pois Maria não quis contar a ninguém que estava grávida.



A convocação do burro de nora
Por aqueles dias, Maria andava preocupada com a saúde de José, porque o via cheio de trabalho e tendo de carregar peso de um lado para outro, pois não tinha nenhum animal de carga. Além das encomendas habituais da carpintaria, tinha assumido trabalhos extras para conseguir um dinheiro a mais e comprar o material que faltava para a sua nova casa. E também estava fazendo os móveis para pôr lá.
Foi quando Maria resolveu rezar a Deus e pe-dir-Lhe um burrinho de carga para José, pois caso contrário o seu esposo certamente terminaria com problemas de coluna.
Ao ouvir a oração de Maria, Deus chamou imediatamente um anjo alegre a quem, para nos entendermos, vou chamar de Fanuel.
– Vó Zuza, eu nunca ouvi falar desse anjo Fanuel!
– O anjo Fanuel é aquele que ficou encarregado de preparar, de acordo com os planos de Deus, o seu presépio. Saiba que o nome Fanuel significa “Aquele que vê a Deus face a face”. 
Deus disse a Fanuel:
– Começa a cumprir-se a profecia sobre os animais do presépio. Fanuel, vou enviar-te à casa de Maria.
Fanuel, que já sentia uma ponta de inveja do Arcanjo Gabriel por ele ter visitado Maria, ficou tão eufórico que não se conteve e exclamou, interrompendo a Deus:
– Que graça imerecida poder ver a Mãe do meu Senhor!
Deus sorriu ao ouvir as palavras de Fanuel e continuou:
– Hoje subiu ao céu a oração de Maria. Se Maria soubesse a alegria que me dá ouvir as preces da minha filha predileta! Mas, Fanuel, imagina só: Ela quer que José tenha um burro! E a verdade é que não posso negar-lhe nada, já que Ela nunca Me negou nada. Encontra, pois, o único burrinho de nora de Nazaré e convence o seu dono a deixar que parta contigo. E convence também o burro, pois quero que o presente seja fruto da generosidade do seu dono e da entrega livre do burrinho aos meus planos.
Fanuel pensou: “Tenho a certeza de que convencer o burro será a parte mais difícil desta missão”.
Deus prosseguiu:
– Fanuel, o que pensaste?!
– Nada de importante, Senhor: uma bobagem!
– Depois, Fanuel, conduz o burrinho de nora até a casa de Maria, e deixa-o amarrado à porta dEla. Ela entenderá que é um presente meu.

1.5 - A convocação do burro de nora


E o anjo Fanuel saiu em disparada. Em um piscar de olhos, estava diante do dono do burrinho de nora, que quase desmaiou ao ver um anjo.
– Não tema! Sou o anjo Fanuel e venho da parte de Deus para pedir o seu burrinho de nora.
– Logo o meu burrinho! Ele é a fonte do meu sustento! É quem rega a minha horta!
Fanuel pensou: “Como alguns humanos são tolos! Será que não entendem que, quando Deus pede alguma coisa a alguém, é Ele quem lhe faz um favor? Se é tão bom pagador que dá cem vezes mais do que pede! Aqui, pelo jeito, vou ter que negociar”.
– Se você me der o burrinho que Deus deseja, terá chuva abundante na sua horta, de forma que não sentirá falta dele; e Deus dará fecundidade às suas terras, de maneira que produzirão bem mais durante anos e você poderá comprar cavalos, vacas e outro burrinho para a sua nora.
– Anjo Fanuel, se é assim, pode levar o meu burrinho; mas há um pequeno problema: ele é um pouco teimoso e pode empacar se não conhecer bem o caminho por onde estiver andando.
– Deixe comigo, que eu mesmo vou guiar o burrinho.
O anjo Fanuel voou até o burro e comunicou-lhe:
– Burrinho de nora tão gracioso, Deus escolheu você para uma missão muito especial. O burro respondeu:
– Tem certeza de que Deus me escolheu, logo a mim que não passo de um burro qualquer?!
– Vó Zuza, que o burro entendesse o que Deus dizia, já era espantoso; mas que ele fale com o anjo, não é demais?!



– Miro, fique sabendo que não é a primeira vez que Deus dá a um burro a graça de falar. Você nunca ouviu contar da burra de Balaão?
– Não, vó Zuza.
– Você tem que ler mais a Bíblia, pois lá se conta como a burra de Balaão falou com esse profeta. Mas, para já, deixe-me retomar a história.
O burrinho de nora não acreditava que Deus precisasse de um burro. Tanto que disse ao anjo:
– Não pode ser! Você não sabe que, quando uma pessoa não pensa com clareza, logo lhe dizem: “Como você é burro, hein!”?
– Burrinho de nora, você sabe muito bem que essa fama de o burro não ser inteligente é falsa: dentre os eqüinos, penso que os burros são os mais inteligentes de todos.
O burro não se convenceu e continuou a argumentar:
– Fanuel, você não sabe que os fazendeiros colocam nas porteiras obstáculos para que os animais não passem e os denominam “mata-burros”?
– Burrinho, sei muito bem que os “mata-burros” não são problema para você, pois, tomando distância, você sempre saltou todos os obstáculos e “mata-burros” que encontrou no seu caminho.
– Mas, Fanuel, além de tudo isso que dizem da minha espécie, eu sou um burro um pouco nervoso, às vezes me irrito com a quantidade de trabalho e solto uns zurros altíssimos, que podem espantar qualquer um.
– Burro de nora, eu ainda nem lhe disse qual seria a sua missão e você já começou a dar uma série de desculpas! Pois eu lhe digo que todas essas desculpas são “surradas” e “esfarrapadas”! Quanto aos zurros, é verdade que seria melhor se você não os soltasse, pois são bem estridentes e podem atrapalhar um pouco a sua nova missão; mas na verdade são poucos, e Deus sabe que, por mais que reclame, zurre e até ameace abandonar o seu trabalho, você nunca falhou. Deus sabe que você é um animal de total confiança. E pode parar de tentar encontrar novas desculpas, pois Deus sabe muito bem a quem escolheu: conhece você perfeitamente e lhe conferirá todas as graças para que cumpra bem a missão que Ele lhe vai confiar.
– Anjo Fanuel, está bem, eu me rendo. Qual é, afinal, essa minha missão?
– Não é pouca coisa, não! Primeiro, você levará a Mãe do Salvador às montanhas, pois Ela vai visitar a sua prima Isabel. Terá de pisar macio, pois o Messias já está no ventre dEla.
– Quer dizer que vou transportar a Mãe do Salvador dos homens e dos burros?!
– Isso mesmo. Depois, você servirá por uns meses a José, o homem escolhido para ser o pai do Messias na terra. José é carpinteiro, e precisa da sua ajuda para carregar madeira de um lado para o outro e puxar a carroça com os móveis que faz ou conserta.
A seguir, quando sair o edito do imperador para que se faça um recenseamento geral dos judeus, você irá a Belém com José e Maria, que estará com a gravidez avançada.
Em Belém, você será posto junto do presépio do Menino-Deus para adorá-lo e ajudar a aquecê-lo no dia de Natal.
Quando perseguirem o Menino para matá-lo, você levará a Sagrada Família para o Egito, e, quando o perigo passar, irá trazê-la de volta.



Um dos seus descendentes servirá mais tarde de trono para o Messias, quando, já adulto, Ele entrar solenemente na cidade de Jerusalém. E agitarão palmas, e estenderão tapetes no seu caminho, e o seu descendente poderá pisar macio.
O burrinho de nora, todo orgulhoso da sua missão, respondeu:
– Se Deus precisa tanto de mim, não posso deixá-lo na mão. Pode dizer-Lhe que sinto muita alegria em poder ser-Lhe tão útil. Mas devo informar que não conheço os caminhos que devo percorrer, pois sempre trabalhei na nora, sem sair do meu lugar.
– Não se preocupe. Deus enviou-me para guiá-lo no seu caminho.

1.6 - O burro Luzeiro a caminho de Belém

Então o anjo Fanuel soltou a corda que prendia o burro e foi ao seu lado, indicando-lhe o caminho até a casa de Maria.
Tudo ia muito bem, até que, na metade do caminho, passaram por um lugar belíssimo, como jamais o burro havia visto: era um jardim gramado, com muitas flores, borboletas de todas as cores, muitas árvores que davam excelente sombra, um riacho com uma cachoeira cujo som era muito repousante. O burro pensou: “É aqui mesmo que eu fico!” 
O anjo assustou-se ao ver que o burrinho empacava e não queria dar mais nenhum passo. Mas logo percebeu que aquele lugar não era real, pois tinha passado muitas vezes por ali e não havia nada daquilo antes. Pensou: “Ou se trata de uma miragem, ou é obra do coisa-ruim, que já quer meter o rabo para que o burrinho não chegue ao fim do seu caminho”.
O anjo pôs-se ao lado do burrinho e disse-lhe ao ouvido:
– Não se esqueça de que Deus precisa de você e está à sua espera.



O burro, que é esperto e sabe que a felicidade não está em curtir a vida (embora de vez em quando o esqueça), mas em fazer o bem e em servir os outros e principalmente a Deus, imediatamente caiu em si e voltou a andar leve e faceiro.
Continuando pelo caminho, tiveram que passar pelo meio de uma mata em que o coisa-ruim tinha preparado outra cilada: um lobo, escondido no meio da mata, esperava o burro para pular sobre o seu lombo e liquidá-lo.
Na hora em que o lobo ia saltar, porém, Fanuel intuiu o perigo e gritou ao burro:
– Cuidado, à sua esquerda!
O burro voltou rapidamente os quartos traseiros para a esquerda e deu um coice como jamais havia dado. Pegou em cheio o lobo, que foi parar a vários metros de distância, totalmente desacordado.
– Miro, foi por muito pouco que o burro não se deu mal. A sorte dele foi que Fanuel tinha intuição angélica e teve tempo de avisá-lo. É preciso tomar cuidado nesta vida, pois quando menos se espera o coisa-ruim pode estar à espreita. Como diz o ditado, com a tentação não se brinca. Às vezes, pode vir de forma violenta, mas outras vezes vem sorrateiramente como uma miragem.
Logo chegaram à casa de Maria. Fanuel amarrou o burro na porta, e por indicação dele o jumento soltou um forte zurro.
Ao ouvir o zurro, Maria entendeu imediatamente que Deus tinha escutado a sua oração e correu a abrir a porta. Deu de cara com o burro e ficou tão radiante de alegria que lhe deu um beijo bem no meio da testa. O anjo Fanuel, que observava escondido a cena, reparou que na testa do burro apareceu uma estrela muito brilhante, exatamente no lugar onde Maria o tinha beijado. E avisou disso o burro, que ficou muitíssimo orgulhoso da sua condecoração e pensou de si para si: “Não foi nada esse susto que passei no caminho, comparado ao prêmio que agora estou recebendo. Espero que sempre me venham pelas mãos de Maria umas carícias destas...”
No dia seguinte logo cedo, Maria preparou a bagagem e partiu em direção às montanhas montada no burrinho. Ficou três meses em casa de Isabel, que era idosa, estava grávida e precisava de ajuda. Quando voltou da visita, Nossa Senhora levou o burrinho de presente a José, como seu dote de casamento. José encantou-se com o burrinho desde o primeiro momento em que o viu e deu-lhe o nome de Luzeiro, devido à estrela brilhante que trazia na testa.
A partir de então, Luzeiro passou ser o animal de transporte e de carga da Sagrada Família, viajando com eles para tudo quanto é lado. Sempre que os caminhos se tornavam escuros, a estrela da sua testa brilhava, permitindo que todos vissem a estrada e não se extraviassem.
Quando se convocou o recenseamento, José, Maria e o Luzeiro partiram para Belém. José ia ao lado do Luzeiro, que transportava Maria com o Menino Jesus no seu seio. Partiram para Belém pensando que poderiam voltar rapidamente para que Jesus nascesse em Nazaré. Tinham-se esquecido da profecia que dizia que o Messias nasceria em Belém e não imaginavam que a burocracia e o afluxo de pessoas fossem tão grandes por lá.
José começou a bater nas portas das casas da aldeia pedindo abrigo. Mas todos diziam, talvez pela gravidez avançada de Maria, que não havia lugar para eles nas suas casas.
Luzeiro foi perdendo a paciência e não agüentou ficar calado; depois da quarta tentativa frustrada, disse a José e Maria:
– Se quiserem, posso dar um coice e derrubar as portas das casas, para que eles aprendam a não fechar as portas a Deus.
Maria, depois de se recuperar do susto de ver um burro falar, disse ao Luzeiro, acariciando-o:
– Você não fará nada disso, pois eles não sabem que estão fechando a porta a Deus. Vamos perdoar-lhes. Deus proverá um bom lugar para nos abrigarmos.
Passaram por uma pousada que estava repleta de pessoas, mas José não quis ficar ali porque faltava um mínimo de privacidade. Por fim, bateram à porta de uma casa mais simples do que as anteriores. Os donos abriram-lhes e disseram:
– Infelizmente, esta casa é pequena demais e não há espaço para vocês. Mas, se quiserem, podem ficar em uma gruta aqui perto, que usamos para abrigar os animais em dias de muita chuva. E para lá se foram. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

2.1 - A criação da vaca

A CRIAÇÃO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
No sexto dia da Criação, Deus criou os animais terrestres.
Deus disse: “Voem as aves sobre a terra, nos céus. E a terra se encha de seres vivos: animais domésticos, répteis e animais selvagens”. E assim foi criada a maioria dos animais.
Mas Deus pensou: “Ainda faltam os principais animais, aqueles que terão uma missão especial a desempenhar no meu presépio. Faltam ainda o burro, a vaca, o cordeiro e o homem”.
A criação da vaca
Para modelar a vaca, Deus tomou areia do mar. Aproveitou cada onda que vinha dar na praia para molhar a areia e ir modelando a sua escultura. Quando a terminou, iluminou-a com uma luz quente e potente. Mal a luz chegou aos olhos da vaca-de-areia, eles se abriram e a vaca tornou-se um ser vivente.
E Deus disse à vaca:
– Tu serás um ser que alimenta, além das suas crias, muitos outros animais. Saciarás a sede deles com o teu leite abundante, fresco e cremoso.



Serás a alegria de Minas Gerais, pois fornecerás a matéria prima para os diversos e saborosos queijos que serão servidos nas suas mesas fartas. Saciarás a fome de muitos com esse alimento saudável e gostoso.
Graças ao teu leite e aos seus derivados, fortalecerás os ossos das pessoas, para que elas tenham uma estrutura sólida e possam agüentar o peso que venha a recair sobre elas.
Muitas vidas serão adoçadas com a delícia do doce-de-leite e com a ambrosia.
Darás a tua carne para que outros seres tenham vida. Ajudarás assim a fomentar a paz e a concórdia em muitas famílias, graças ao teu sacrifício.
Serás um animal forte, capaz de puxar a canga atrelada ao arado. Por ti os campos serão revolvidos e abrirás um sulco profundo para que a semente penetre na terra e dê frutos.
Uma parte dos teus descendentes, os touros, terão uma força descomunal e serão temidos pelos outros animais, embora alguns pretendam disputar em força e habilidade com eles.
Dos teus chifres farão uns instrumentos musicais poderosos, os berrantes, que servirão para conduzir outros animais da tua raça por caminhos seguros.
Mas devo alertar-te para que não caias na tentação da vaidade e do orgulho, pois diversos povos, pelas tuas muitas qualidades, te valorizarão mais do que é devido: pensarão que és um animal sagrado, e alguns chegarão mesmo a fazer imagens de ouro tuas para adorar-te. Mas não te deixes enganar: lembra-te de que as tuas qualidades são dons que recebeste de Mim e recorda sempre que já foste um montão de areia do mar.

2.2 - A figura da vaquinha do presépio

– Vó Zuza, a senhora pode explicar-me de que pessoas a vaca é figura?
– Miro, já lhe tinha dito que assim se perde a graça. Por que você não se arrisca a interpretar a história da Criação?
– É que tenho medo de errar na minha interpretação.
– Não tenha medo. Se você errar, eu o corrijo. Mas não quero dar a explicação de mão beijada.
– Então vou arriscar. A senhora disse que a vaca daria a sua carne como comida e que alimentaria abundantemente outros seres. Penso que essa passagem faz referência à Eucaristia. Pois Jesus deu a sua própria carne para alimento da nossa vida espiritual.




– Você arriscou mesmo e quase acertou! Mas a vaca não é figura de Jesus presente na Eucaristia, e sim o cordeiro. Tudo o que você disse se aplica perfeitamente ao cordeiro. Você nunca reparou no que diz o padre João Romão, na Missa, ao levantar a hóstia consagrada antes da comunhão?
– Acho que me lembro, sim. É verdade! Ele diz: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
– Então, Miro! Mas vamos deixar o cordeiro de lado, pois agora estamos falando da criação da vaca. Deixe-me explicar-lhe. Há dois alimentos principais para o nosso espírito, a Eucaristia, como você bem disse, e a palavra de Deus. Como diz a Bíblia, nem só de pão se alimenta o homem, mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Saciam a fome e sede de felicidade e de bem dos outros as pessoas que conhecem bem a palavra de Deus, a põem em prática e a ensinam aos outros. Assim fortalecem muitas vidas cristãs, para que se mantenham firmes contra as tentações, contra os maus costumes do ambiente em que vivem.
Conheço muitos sacerdotes que estudam a palavra de Deus e preparam bem as suas homilias de domingo, e assim alimentam as pessoas saciando a sua fome de verdade e de Deus. Alimentam as crianças com o leite espiritual tantas professoras de catecismo, que explicam pacientemente as principais verdades da fé, preparando os seus alunos para a primeira Comunhão e para a vida.
E a palavra de Deus, meditada na leitura do Evangelho, bem “ruminada” no estudo da doutrina da Igreja, torna-se saborosa como o melhor doce-de-leite do mundo, como a mais gostosa ambrosia. Quem a saboreia quer depois dá-la a conhecer, adoçando também a vida das pessoas que se encontram à sua volta.
– Então, vó Zuza, a vaca, com o alimento da sua carne, representa todas as pessoas que ensinam a palavra de Deus na igreja?
– Não só essas pessoas. Representa igualmente aquelas que sabem ensinar a palavra de Deus com a vida. Cristãos que abrem o seu coração com simplicidade aos colegas, e conseguem inflamá-los com o seu amor a Deus e aos outros, com os seus valores e ideais elevados, com o seu desejo de santidade. Eles não se encontram somente nas igrejas, mas em qualquer lugar deste mundo de Deus. O bom exemplo de vida cristã de tantos pais em suas casas e de muitos colegas nas escolas e nos ambientes de trabalho é o arado que remove o coração de muitos, abrindo sulcos profundos, para que depois a palavra de Deus penetre a fundo e não encontre resistências.
– Mas o contrário também é verdade: não adianta apenas falar bonito, pois se a pessoa não vive o que fala, as outras pessoas não a ouvem e, além disso, pensam: quem é esse para me falar disso?
– É verdade. Mas não é preciso sermos perfeitos em um assunto para falar dele; basta que vejam que nos esforçamos por viver aquilo que ensinamos.
– Vó, e o que significa o berrante na história da criação da vaca?




– Significa os bons costumes cristãos adquiridos na infância, como por exemplo oferecer o dia a Deus, abençoar os alimentos, rezar alguma oração em família, montar o presépio na época de Natal... Com o tempo, esses costumes soam alto na memória e no coração das pessoas e as fazem retornar ao caminho seguro. Mais alguma pergunta sobre a criação da vaca?
– Tenho sim: por que Deus quis alertar a vaca sobre o perigo da vaidade?
– Ora, porque a vaidade é o grande perigo, a tentação mais forte das pessoas boas e que sabem muito, e que ensinam aos demais as verdades de Deus. Como muitas vezes ficam em evidência e recebem elogios do povo, podem atribuir a si mesmos o que é resultado principalmente da graça e da palavra de Deus nas suas vidas.
– Deve haver muitas vacas e bois por esse mundo de Deus, não é verdade?
– Muito menos do que você pensa, Miro!
– Mas os pais não se preocupam em ensinar aos filhos as verdades sobre Deus e o mundo? E não ensinam os seus filhos a comportar-se de forma cristã?
– Não pense que todos os pais por aí são como os seus. Sem dúvida que todos os pais querem o bem dos seus filhos, e lhes dizem que devem ser bons, que devem fazer o bem, mas não indicam como podem ser bons, nem o bem que deve ser feito. Às vezes, não falam porque não sabem, outras vezes porque não vivem o que dizem. E os filhos acabam ficando desorientados no mundo.
– E o que esses pais deveriam dizer aos seus filhos?
– O que os pais cristãos sempre disseram: que a fé é para ser vivida, que a nossa felicidade está em seguir os mandamentos de Deus, que devem levar uma vida de oração e de amizade com Deus, que é importante ir à Missa, que é preciso respeitar os mais velhos, que não se deve roubar, nem mentir, que não sejam consumistas, que perdoem aos demais, que sejam pessoas de paz, que vivam a castidade e se guardem para o casamento e sejam fiéis. Tudo isso e muito mais.
– Vó Zuza, se a senhora deixar, vou colocar a figura da vaca mais perto da figura do Menino Jesus, pois acho que ela merece.

2.3 - A convocação da vaquinha

A CONVOCAÇÃO DOS ANIMAIS
– Vó Zuza, a senhora já explicou a historia da criação do burro e da vaca, mas ainda não contou como se cumpriram as profecias de que uma vaquinha estaria no presépio!
– Então, passemos à essa parte da história: o cumprimento das profecias sobre a vaquinha do presépio.
O Anjo Gabriel já tinha sido enviado a Maria, para anunciar que Ela seria a Mãe do Messias. E como Maria tinha respondido generosamente que sim, Deus já estava presente no seu seio. Talvez tenha sido o momento mais importante da história dos homens e de toda a criação! Embora no momento em que isso aconteceu, ninguém o tenha percebido, pois Maria não quis contar a ninguém que estava grávida.
A convocação da vaquinha do presépio
Nisso, Deus chamou o anjo Fanuel e disse-lhe:
– José está preocupado porque Maria em breve dará à luz a Jesus e terá que amamentá-lo. Por isso, pediu-me um presente: uma vaquinha leiteira, para que Nossa Senhora possa tomar leite durante estes dias. Portanto, Fanuel, vai resolver este assunto.
Ontem, José e Maria bateram à porta de uma casa bem pequena, de uma família pobre; são pobres, mas não miseráveis: têm uma vaquinha que dá leite, em quantidade suficiente tanto para eles quanto para a Sagrada Família. Convence a vaquinha a passar uns dias no presépio, e os seus donos a emprestá-la. Mas não reveles aos donos que o meu Filho está para nascer.
Fanuel dispôs-se a cumprir essa missão com criatividade, entrando naquela mesma noite nos sonhos dos donos da vaquinha. Ao acordar, a dona da vaquinha contou o seu sonho ao marido:
– Meu bem, eu tive um sonho muito diferente esta noite!
– Pois eu também. Mas conte-me primeiro o seu.
– Sonhei com um anjo cujo nome era bem estranho: Fanuel. No sonho, ele dizia-me que eu tinha fechado o coração a Deus por não ter acolhido aquela família que havia batido à nossa porta, ontem de tarde. Expliquei-lhe que a nossa casa era pequena e que não caberiam aqui. E perguntei-lhe então: “Que posso fazer?”
Não esperava resposta alguma, quando ele me disse: “Pelo menos, leve-lhes um pouco de comida e empreste-lhes a vaca para que possam tomar leite enquanto estiverem na gruta. E deixe a senhora dessa família utilizar o seu fogão a lenha quando Ela quiser”.
E acordei decidida a fazer tudo o que o anjo me disse no sonho.
O marido disse-lhe:
– Pois eu sonhei o mesmo. Só pode ser coisa de Deus! Vamos levar-lhes a nossa vaquinha.
Enquanto isso, o anjo Fanuel foi convencer a vaquinha leiteira.
– Vaquinha leiteira tão formosa, sou Fanuel e venho da parte de Deus para informá-la de que Ele escolheu você, dentre muitos outros animais, para que o sirva e adore o seu Filho na gruta de Belém.




Assustada, a vaquinha respondeu:
– Tem certeza? A mim?! Não é possível! Você, pelos vistos, não sabe que o meu prestígio não anda lá muito alto por aí!
– Vaquinha, não importa o que os outros animais pensem de você; só interessa o que você é diante de Deus!
A vaquinha disse com a voz tristonha:
– Está bem, está bem, eu vou!
Mas Fanuel continuou:
– Formosa, você não pode ir ao presépio como quem vai para o matadouro! Deus não a deixará entrar! Deve ir alegre como quem vai para o céu, pois o presépio é precisamente uma das suas portas.
E insistiu:
– Há alguma coisa que a preocupe? Abra o coração comigo, para que eu possa ajudá-la.
– Fanuel, aposto que, se eu for com você, dirão que não tenho opinião própria, que sigo o primeiro que aparece, que sou uma vaquinha-de-presépio.
– Formosa, não sou qualquer um! Venho da parte de Deus! E seguir a Deus é o que vai dar sentido pleno à sua vida. Cumprir a missão para a qual Deus a destinou é que dará sentido e realização à sua vida.
Mas vejo que você ainda se preocupa muito com a sua imagem e que é isso o que a impede de aceitar a vontade de Deus. Formosa, não tenha vergonha de ser boa! Os que se comportam mal e falam mal de você é que deveriam ter vergonha do que fazem! Sem o menor fundamento, acusam os que conhecem a Palavra de Deus e são coerentes com os seus ensinamentos de “radicais” ou de “vaquinhas-de-presépio”. Mas não dê ouvidos aos animais nem aos homens, pois poucos são de total confiança; dê ouvidos a Deus.
Em Deus não se pode crer a meias. Ou cremos que Ele é a verdade, a bondade em pessoa, e que tudo que nos diz e pede é para nosso bem, ou não acreditamos que seja Deus! Orgulhe-se de ser uma vaquinha de presépio, e não tenha receio de ser feliz, como jamais será nenhum dos que a acusarem.
– Puxa, Fanuel, que bronca você me deu! Mas fez-me ver as coisas mais claramente. Agora, sim, estou preparada para entrar no presépio. Estou disposta até a ser incompreendida, se Deus assim o permitir.
Mal a Formosa terminou de aceitar a sua convocação para o presépio, os seus donos chegaram para apanhá-la e levá-la até a Sagrada Família.
José assustou-se ao ver que traziam uma vaquinha leiteira para o presépio, mas imediatamente agradeceu a Deus que o seu pedido tivesse sido atendido tão rapidamente. Além da vaquinha, os vizinhos traziam também alguns queijos e uma torta, e puseram o seu fogão de lenha à disposição de Maria. 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

3.1 - A criação das ovelhas

A criação das ovelhas e cordeiros
No sexto dia da Criação, Deus criou os animais terrestres.
Na criação dos cordeiros e ovelhas, Deus utilizou a neve mais branca das altas cordilheiras. Fez de uma só vez vários bonecos de neve, no formato do Cordeiro idealizado na sua mente. Depois de terminar os bonecos, deu um longo assobio. Mal o som chegou aos ouvidos das ovelhas e dos cordeiros, eles se tornaram seres viventes.




E Deus disse-lhes:
– Vós, cordeiros e ovelhas, sereis seres que vivem para os outros. A vossa felicidade estará em pensar nos outros antes de pensardes em vós mesmos. Tereis o saudável costume de estar sempre pendentes dos outros cordeiros e ovelhas. Além da pele, tereis uma cobertura de lã, macia, sem qualquer aspereza. Sereis incapazes de machucar algum outro ser. Por vossa lã, muitos já não sentirão mais frio no inverno e poderão vestir-se de forma elegante.
Nenhum animal será capaz de uma generosidade como a vossa: sereis capazes de dar a vida pelos outros, amorosa e silenciosamente.
E o mais importante: um dia, alguns dos vossos descendentes estarão na gruta de Belém, e roubarão o coração do meu amado Filho desde aquele momento em que ainda é um bebê.
– Vó Zuza, a senhora deixa-me tentar descobrir de que tipo de pessoas os cordeiros e ovelhas são figura?




– Claro que sim, Miro. Gostaria de conhecer a sua interpretação.
– Pois bem, elas tornaram-se seres vivos quando ouviram o assobio de Deus. Sabemos que Jesus diz de si mesmo que é o Bom Pastor que guia as suas ovelhas. Logo, as ovelhas e cordeiros são figura de todos os homens que ouvem o assobio de Jesus e o reconhecem e o seguem.
– Com certeza, Miro, mas não basta. Como é que as pessoas se fazem figura das ovelhas que seguem Cristo?
– Penso que é quando levam uma vida sacrificada.
– Muito bem, é isso mesmo! Mas ser sacrificado não basta para ser ovelha! Pois há muitas pessoas que se sacrificam na vida para ter fama, sucesso, dinheiro, beleza física, até mesmo para fazer coisas erradas. Essas pessoas não são ovelhas.
– É verdade. Então, deixe-me completar a minha resposta. São ovelhas aquelas pessoas que sabem sacrificar-se não movidas por interesses pessoais, mas por amor a Deus e por amor aos outros.
– E não é que você está ficando sabichão?!
– Vó Zuza, não me trate como criança! Sabe quantos anos tenho? Quinze!
– Puxa, com quinze anos eu comecei a namorar o seu avô e com dezenove nos casamos!...
Mas voltemos à explicação da história. Foram cordeiros e ovelhas tantos mártires do cristianismo que derramaram o seu sangue e deram a vida por Deus; e também o são aquelas pessoas que se sacrificam por amor a Deus e aos outros dando a sua vida gota a gota, dia a dia. São elas que seguem mais de perto Jesus Cristo, que é o Bom Pastor e ao mesmo tempo o Cordeiro, que deu a sua vida silenciosamente por todos nós. Mas ainda há outras pessoas que são ovelhas. Quem você acha que são?
– Acho que... vou deixar a senhora explicar.
– Pois bem, as ovelhas também representam as pessoas que têm um coração manso, que não se irritam à toa, que renunciaram à cólera nas suas vidas, que abandonaram o furor e a raiva, e por isso vivem alegres e com uma paz imensa na alma. Essas pessoas normalmente criam um ambiente muito agradável ao seu redor, um ambiente de descontração e de carinho, fundamental para que os outros se sintam bem.
A lã da ovelha representa a capacidade de lidar com pessoas de temperamento mais agressivo. Como diz um antigo ditado: “Nada pára melhor a força de uma bala do que a lã”. Por tudo isto, as ovelhas aquecem o ambiente, dão calor e aconchego aos outros.
– Como fazem falta, hoje em dia, ovelhas no nosso mundo, né, vó?! Eu que não tenho muitos anos, nem muita experiência, percebo como as pessoas por aí vivem irritadas, tratam os outros de maus modos e com grosseria. E acabam machucando as pessoas com quem se relacionam, até as que mais amam.
– Sim. E como essas pessoas “não aceitam levar desaforo para casa”, e querem devolver todas as ofensas que sofreram, acabam passando mal e sofrem terrivelmente.
Às vezes, é por tão pouca coisa!: um pequeno atraso do ônibus, uma explicação mal dada de uma professora, ou um pequeno percalço na hora do café da manhã, quando uma criancinha derruba o leite. Basta qualquer dessas coisas para que o seu dia já azede. E vão carregar o seu mau humor por horas e horas, senão por dias inteiros. Além de que criam um clima insuportável à sua volta.
Miro, por tudo isto que vimos, as ovelhas e os cordeiros merecem estar bem perto de Jesus no presépio, pois são como Ele: mansos e humildes de coração.